Categoria: Entrevistando


Na PELE de Hugo Cruz

Hugo Cruz é co-fundador da Associação PELE e um dos intervenientes no MITO Social, uma das novidades desta edição. A par do espetáculo Meto a Colher, fomos aprofundar mais sobre o workshop Teatro, Comunidade e Participação e sobre o papel que o teatro pode desempenhar na (re)construção de uma comunidade.

“Através da arte, do pensamento divergente e criativo, podemos encontrar e construir outros espaços de interacção e realização.”

entreMITOS – O entreMITOS lança este ano uma nova vertente ligada à intervenção o MITO Social. Qual a sua opinião sobre esta vertente que visa promover a reflexão sobre o papel da arte na sociedade, enquanto arma de intervenção cultural?

Hugo Cruz – Na minha opinião esta é uma tendência natural, principalmente no contexto mundial actual que vivemos. Perante uma crise, que se multipla em “crises” diversas, o caminho só pode ser o da participação e envolvimento das pessoas na procura de soluções conjuntas. A arte, espaço de igualdade, tem aqui um papel incontornável, através dos processos criativos podemos desatar o mundo, encontrar formas eficazes de desmantelar os nós que bloqueiam o seu desenvolvimento. Através da arte, do pensamento divergente e criativo, podemos encontrar e construir outros espaços de interacção e realização. Felizmente os festivais de teatro em Portugal estão também a perceber esta necessidade e a inserir na sua programação este tipo de projectos.

eM – A consciêncialização da educação pela arte começa a ser uma realidade cada vez maior. De que forma é que o contexto comunitário pode ser potenciado pelo teatro?

HC – As comunidades, o local e o próximo estão profundamente desvalorizados no contexto actual. Assistimos, felizmente a uma inversão desta tendência, precisamos de perceber no entanto se este é um movimento genuíno. O teatro é uma forma de comunicar única e que permite identificar numa comunidade o que a faz manter-se unida com uma identidade própria e o que provoca um sentido de pertença em quem a habita. Vislubrando estas componentes o processo é o de dar um palco priviligiado a esta comunidade, reconstruindo-a através da linguagem teatral, devolvendo-a desta forma, ao seu território e às suas gentes. O teatro pode permitir desbloquear e/ou criar canais de comunicação numa comunidade e reforçar o gostar de ser daquele espaço e viver com aqueles outros.

eM – A Associação PELE é um dos intervenientes desta grande novidade. Qual a abordagem que segue ao trabalhar com a comunidade e para a comunidade?

HC – A PELE tem feito um caminho que procura respeitar sempre as memórias, valores, tradições e saberes de uma comunidade. Procura encontrar-se com uma comunidade numa postura perguntadora, curiosa, desafiadora e não de quem tem a certeza do espectáculo certo para fazer em determinado tempo e espaço. Procuramos não pilhar o património das comunidades e genuinamente construir algo com elas. A proposta da PELE é um enamoramento, um conhecimento mútuo, um cruzar de saber-fazeres até chegar a um resultado que se devolve à comunidade, com uma outra roupagem. Esta postura nem sempre é facil , exige um alerta constante e segue uma lógica que se estende no tempo que nem sempre é compativel com os tempos dos projectos. O mais dificil é efectivamente encontrar a melhor forma de perguntar às pessoas sobre o que querem falar e como querem falar, qual é a sua urgência. Essa é a nossa procura, seguindo para isso os trilhos dos processos artísticos de construção colectiva.

eM – O que o levou a seguir esta área especifica do teatro?

HC – O encontro com o teatro comunitário teve a ver com o tipo de trabalho que os vários fundadores da PELE já desenvolviam e com uma sintonia sobre uma ideia do que é arte e como ela se constroi. De uma forma mais racional temos vindo a perceber que o desafios deste tipo de trabalho passam por principios que nos norteam enquanto colectivo, nomeadamente a ética, dar um palco aos não-lugares e à cultura popular. Para além disso, o espetáculo teatral permite o cruzamento de diferentes linguagens de uma forma única e integradora, daí a importância dos fundadores e colaboradores da PELE terem diferentes proveniências.


eM – O nome da conversa e workshop em que participa intitula-se Teatro, Comunidade e Participação.
Em que sentido é que “somos todos atores”?

HC – Num sentido mais geral somos todos atores da nossa própria vida, escrevendo a narrativa que vivemos. Em projectos de teatro comunitário as pessoas tem uma oportunidade de reencontrarem a sua narrativa, assumem em primeiro lugar uma função própria, especifica, diferenciadora dos outros. É neste sentido que cada um encontra a sua função na construção de um projecto. Numa fase posterior sobem ao palco e experimentam o teatro numa outra perspectiva, este é apenas mais um importante passo dum processo mais amplo de empoderamento do individuo.

eM – Como se desenvolveu o trabalho de pesquisa e preparação para a performance Meto a Colher, focada na violência doméstica?

HC – Nesta performance durante 5 anos a pesquisa foi feita em escolas, praças, gabinetes de apoio a vítimas, esquadras de polícia de todo o país, seguindo diferentes processos. Foi um trabalho feito através de formações, apresentações públicas, fóruns de discussão, visionamento de filmes, leitura de livros, entrevistas, entre outros. Mas o mais impotante foi sem dúvida o contacto com vítimas e agressores e perceber a complexidade desta realidade.


eM – Qual a reacção que pretendem provocar no público?

HC – A proposta de Meto a Colher é de tornar ainda mais ténue a fronteira entre a esfera de vivência pública e privada. Pegando no ditado popular “entre marido e mulher ninguém mete a colher” e na legislação portuguesa que considera a violência doméstica um crime público é obrigar as pessoas a colocarem-se na situação de terem que decidir: manter o culturalmente enraizado ou optar pelo legalmente inovador. Para isso propomos vários quadros de rotinas familiares procurando atravessar várias casas, pessoas e relações, tal como a violência doméstica atravessa transversalmente toda a sociedade. O público terá a possibilidade de decidir onde se quer colocar perante um quadro que pode acontecer na casa em baixo da sua ou com o seu colega do seu trabalho. Sem rodeios a nossa pergunta é: o que fazemos quando espreitamos para uma realidade assim, metemos a colher ou não?

O entreMITOS esteve à conversa com o diretor da companhia de teatro Os Dezequilibrados, Ivan Sugahara, para conhecer melhor a sua nova peça Terra do Nunca, com estreia absoluta no entreMITOS 2010.

“Acho que me sinto um pouco Peter Pan”


entreMITOS – O que é a Terra do Nunca?

Ivan Sugahara – O espetáculo partiu da busca da juventude eterna e é um tema muito presente na minha geração, que vem duma classe burguesa, que ainda vive e depende financeiramente dos pais, que ainda não tem filho, que tenta prolongar ao máximo a juventude, ao contrário dos nossos pais, que seguiram um modelo mais convencional. Podemos ver também pelos mais velhos que não aceitam o envelhecimento e têm essa obcessão pela indústria estética. Além disso, hoje em dia vemos os homens procurando adaptar um visual e linguagem mais juvenil às suas vidas. A sociedade vive esse culto da juventude, persegue a beleza porque a associa ao jovem. Então foi isso que me fez reflectir sobre este tema, sobre este desejo de querer ser jovem para sempre.

eM – Como é que trabalhou esta ideia e a adaptou para teatro?

IS – Bom, a peça tem quatro referências – quatro personagens. A personagem base, que é o emblema da peça, pelas razões mais óbvias, é o Peter Pan, o menino que não quer crescer, que é uma personagem criada por James Barrie. O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde, também foi uma inspiração para este espetáculo. É a história de um jovem lindíssimo que é retratado numa pintura e desespera quando se apercebe de que, enquanto ele vai envelhecendo, o retrato permanece sempre igual. Outra referência é o Michael Jackson, um dos maiores ícones da cultura pop, marcado por uma trajectória muito particula e pela forma como perseguiu a juventude, construindo a sua própria Terra do Nunca, nome do seu rancho particular. Ele não só perseguiu a juventude, como ainda o ideal de beleza associado à juventude, Uma referência menos óbvia é o Super Homem, o jovem indestrutível, imortalizado por Christopher Reeve, que sofre um acidente que o deixa tetraplégico. Esta imagem do Super Homem preso a uma cadeira de rodas representa toda a nossa impotência em relação à passagem do tempo. Se até o Super Homem fica assim, que será de nós, não é? Neste espetáculo nós não queremos criticar, mas sim reflectir sobre esta questão, sobre o que tem de mau e o que tem de bom em ser jovem.


eM – Quais são as suas primeiras impressões sobre o entreMITOS?

IS – É a primeira vez que estou em Portugal, estou gostando muito de estar aqui, esta é uma iniciativa muito boa, muito organizada, com uma equipa bastante eficiente.

eM – E o Ivan,  já encontrou a sua Terra do Nunca ou isso apenas é um MITO?

IS – Eu acho que me sinto um pouco Peter Pan. O facto de ter feito este espetáculo, fez com que eu refletisse sobre todas as minhas relações, sobre a minha dificuldade de ter um relacionamento mais sério, de criar laços mais fortes com o emprego, com a família. Tem um lado positivo também, nós nos questionamos mais, não procuramos seguir tanto o modelo convencional do ser adulto, do casar cedo e ter filhos. Mas para mim, o mundo ocidental, que hoje em dia é dominado pela cultura pop, é um grande Terra do Nunca, e é aí que nós vivemos.

Elinga Teatro

José Mena Abrantes dirige, desde a sua criação em 1988, o grupo Elinga-Teatro, que em 2008 venceu o Prémio Nacional de Cultura e Artes.

O Blog MITO entrevistou-o, venha conhecer mais sobre esta companhia de teatro angolana.

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Cândida Bila é actriz, encenadora e directora artística da Companhia de Teatro Kudumba, em Moçambique. Com pesada fama na terra mãe, os Kudumba apresentam-se no MITO com o espectáculo Só Cheira a Borracha.

O Blog MITO entrevistou-a.

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